Num escritório, é mais provável ouvir um homem dizer “estou cansado” do que “estou ansioso”. É mais provável ouvir “tive uma semana complicada” do que “sinto que não estou a conseguir lidar com isto”. A linguagem emocional masculina no contexto profissional tende a ser indireta, contida, traduzida em queixas físicas ou em irritabilidade, raramente nomeada de forma direta.
Esta diferença não é acidental. Resulta de décadas de socialização que associaram masculinidade a autossuficiência, controlo emocional e resistência ao sofrimento. E, embora as conversas sobre saúde mental no trabalho tenham avançado significativamente na última década, esse avanço não chegou de forma equitativa a todos os grupos. Os homens continuam, de forma consistente, a procurar menos apoio psicológico do que as mulheres, mesmo apresentando taxas elevadas de sofrimento emocional, frequentemente expresso de formas que passam despercebidas.
Para as organizações que querem construir culturas de bem-estar genuínas, este é um desafio que não pode continuar a ser ignorado.
Os números que revelam o paradoxo
A Organização Mundial da Saúde estima que os homens morrem por suicídio a taxas significativamente mais elevadas do que as mulheres na maioria dos países do mundo, em Portugal, os dados do Instituto Nacional de Estatística mostram consistentemente uma proporção de cerca de três para um. Este dado é particularmente revelador quando cruzado com outro: estudos epidemiológicos indicam que as mulheres reportam, em geral, taxas mais elevadas de diagnóstico de depressão e ansiedade.
O paradoxo está exatamente aqui. Não é que os homens sofram menos, é que sofrem de forma menos visível, procuram menos ajuda e, quando o sofrimento se agrava, as consequências tendem a ser mais graves. Investigação publicada na revista American Journal of Men’s Health confirma este padrão, associando-o diretamente a normas de género que penalizam socialmente a expressão de vulnerabilidade emocional masculina.
No contexto de trabalho, este padrão tem expressão própria. Homens em posições de liderança, em particular, relatam sentir uma pressão acrescida para parecer permanentemente competentes e em controlo, o que torna a procura de apoio psicológico ainda mais difícil de assumir publicamente.
Como o sofrimento masculino se manifesta no trabalho
Um dos motivos pelos quais este problema permanece pouco visível é que a sua expressão raramente corresponde ao que tipicamente se associa a sofrimento emocional. Em vez de tristeza visível ou expressão verbal de ansiedade, o sofrimento masculino tende a manifestar-se através de irritabilidade aumentada, maior consumo de álcool, isolamento social progressivo, aumento de comportamentos de risco ou excesso de trabalho como forma de evitamento emocional.
Um colega que se torna mais distante, mais cortante nas interações, ou que começa a trabalhar horas excessivas sem que isso pareça gerar qualquer satisfação aparente, pode estar a comunicar sofrimento através de um código que a maioria das organizações ainda não sabe ler.
A investigação em psicologia clínica descreve este padrão como “depressão masculina atípica”, um conjunto de sintomas que difere da apresentação clássica e que, por isso, é frequentemente subdiagnosticado e mal compreendido, tanto por profissionais de saúde como por colegas e lideranças no contexto profissional.
A origem cultural do silêncio
A relutância masculina em procurar apoio psicológico não nasce de falta de sofrimento, mas de décadas de condicionamento social. Desde cedo, muitos homens são ensinados, direta ou indiretamente, que expressar vulnerabilidade é sinal de fraqueza, que pedir ajuda é admitir incapacidade, e que a resiliência se demonstra através do silêncio e da autossuficiência.
Estas mensagens, absorvidas ao longo de toda uma vida, não desaparecem ao entrar no mercado de trabalho. Pelo contrário, são frequentemente reforçadas por culturas organizacionais que valorizam a força aparente, a resistência à pressão e a ausência de queixas como sinónimos de profissionalismo e competência de liderança.
A consequência é um ciclo onde os homens aprendem a esconder o sofrimento tão eficazmente que, muitas vezes, deixam de o reconhecer em si próprios, substituindo a pergunta “como me sinto?” por “o que ainda consigo aguentar?”.
O impacto nas equipas e na liderança
Este padrão tem consequências que vão além do indivíduo. Quando líderes masculinos operam sob sofrimento emocional não reconhecido, a probabilidade de transmitirem esse estado às suas equipas, através de maior reatividade, decisões impulsivas ou dificuldade em tolerar incerteza, aumenta significativamente.
Além disso, a forma como os líderes lidam (ou não lidam) com a sua própria saúde mental tem um efeito de modelagem poderoso sobre as suas equipas. Um líder que nunca admite dificuldade comunica, implicitamente, que essa também deve ser a postura esperada de todos os outros. Por outro lado, um líder que reconhece abertamente momentos difíceis, sem teatralidade mas com autenticidade, cria espaço para que a sua equipa faça o mesmo.
Esta dinâmica é particularmente relevante porque a liderança organizacional continua a ser, em muitos setores e países, predominantemente masculina. Trabalhar a saúde mental masculina não é, por isso, apenas uma questão de equidade de género, é uma questão de saúde mental organizacional como um todo.
Como as organizações podem desenhar respostas mais eficazes
Programas de bem-estar genéricos, pensados sem considerar estas diferenças, tendem a ter menor adesão entre profissionais masculinos. Isto não significa que os homens não precisem de apoio, significa que a forma como esse apoio é comunicado e disponibilizado precisa de ser repensada.
A investigação em saúde pública sugere que iniciativas estruturadas em torno de atividade física, desafios coletivos ou conversas indiretas sobre desempenho e energia tendem a ter maior recetividade masculina do que abordagens centradas exclusivamente em linguagem emocional explícita, pelo menos como ponto de entrada inicial para conversas mais profundas.
Disponibilizar apoio psicológico totalmente confidencial, sem necessidade de comunicação prévia a superiores hierárquicos, é igualmente determinante. O medo de que procurar ajuda possa ser interpretado como sinal de fragilidade profissional continua a ser uma das maiores barreiras e só pode ser combatido com garantias reais e visíveis de confidencialidade.
O valor de testemunhos masculinos visíveis
Um dos fatores mais eficazes na redução do estigma é a visibilidade de homens em posições de respeito e sucesso que partilham, de forma autêntica, as suas próprias dificuldades emocionais. Quando um líder reconhecido partilha que já recorreu a apoio psicológico, ou que viveu um período de exaustão emocional, isso tem um efeito desproporcionado na permissão que cria para que outros façam o mesmo.
Esta normalização não acontece por acaso. Exige intenção, espaços estruturados e, frequentemente, formação específica para que as lideranças se sintam preparadas para partilhar este tipo de experiência de forma construtiva, sem comprometer a sua autoridade ou credibilidade profissional.
Equidade em saúde mental é equidade real
Construir culturas de bem-estar verdadeiramente inclusivas exige reconhecer que diferentes grupos vivem o sofrimento emocional de formas diferentes e que, por isso, precisam de portas de entrada diferentes para o mesmo destino: o cuidado genuíno com a sua saúde mental.
Ignorar as diferenças de género na expressão e procura de apoio emocional significa, na prática, que uma parte significativa dos colaboradores continuará a sofrer em silêncio, mesmo quando a organização investe em programas de bem-estar bem-intencionados.
A equidade em saúde mental não significa tratar todos exatamente da mesma forma. Significa garantir que todos têm acesso real e percebido a apoio adequado às suas circunstâncias, incluindo as barreiras culturais específicas que ainda hoje impedem tantos homens de pedir ajuda.
O contributo da Workwell para uma saúde mental mais equitativa
É neste contexto que o trabalho da Workwell assume particular relevância.
Com uma equipa de psicólogos e psiquiatras experientes, a Workwell desenvolve programas de saúde mental e emocional desenhados para chegar a diferentes perfis dentro das organizações, com total confidencialidade e formatos de acesso que reduzem as barreiras culturais à procura de ajuda, incluindo aquelas que afetam de forma particular a população masculina.
Há 18 anos a trabalhar com organizações em Portugal, a Workwell sabe que o bem-estar genuíno só se constrói quando todas as pessoas, independentemente do género, da função ou da posição hierárquica, sentem que podem, sem custo reputacional, admitir que precisam de apoio.
Pedir ajuda não é fraqueza. É, frequentemente, o ato mais corajoso que alguém pode fazer.



