A solidão no trabalho: o problema silencioso que afeta mais pessoas do que se pensa

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Existe uma experiência que muitos profissionais conhecem, mas que raramente têm palavras para descrever. Não é insatisfação com o trabalho. Não é conflito com colegas. É algo mais difuso, uma sensação de desconexão, de não pertencer verdadeiramente ao grupo, de passar os dias rodeado de pessoas mas sem uma ligação genuína com nenhuma delas.

É solidão. E está a acontecer dentro das organizações com uma frequência que a maioria dos indicadores de gestão ainda não consegue captar.

Durante muito tempo, a solidão foi tratada como um problema da esfera privada, algo que as pessoas resolvem fora do trabalho, com a família e os amigos. No entanto, a investigação das últimas décadas demonstra que a solidão não respeita fronteiras entre vida pessoal e profissional. Ela instala-se também nos corredores, nas reuniões, nas trocas de mensagens diárias e tem impacto direto na saúde mental, no desempenho e na estabilidade das organizações.

Um problema de saúde pública com expressão organizacional

Em 2023, o Cirurgião-Geral dos Estados Unidos, Vivek Murthy, publicou um relatório histórico sobre a epidemia de solidão, classificando-a como uma das maiores ameaças à saúde pública da atualidade. O documento cita evidências científicas que equiparam o impacto da solidão crónica ao de fumar 15 cigarros por dia, aumentando significativamente o risco de doenças cardiovasculares, depressão, declínio cognitivo e mortalidade prematura.

Na Europa, os dados seguem a mesma tendência. Um relatório da Comissão Europeia indica que entre 10% a 20% dos adultos europeus reportam sentir-se sós com frequência e este número aumenta consideravelmente quando se analisa especificamente a população em idade ativa.

O local de trabalho não é imune a este fenómeno. Muito pelo contrário: para muitas pessoas, é precisamente no trabalho que a solidão se manifesta de forma mais persistente, porque é lá que passam a maior parte das suas horas ativas e onde a ausência de ligação genuína é mais difícil de reconhecer e nomear.

 

Solidão não é o mesmo que estar sozinho

Uma das razões pelas quais este problema tarda em ser reconhecido é a confusão entre solidão e isolamento físico. A solidão no trabalho raramente tem a ver com estar sozinho. Pelo contrário, manifesta-se frequentemente em ambientes ruidosos, em open spaces cheios de gente, em equipas numerosas com muita comunicação, mas pouca conexão real.

A diferença está na qualidade das relações, não na sua quantidade. Uma pessoa pode ter dezenas de colegas, participar em todas as reuniões e estar constantemente disponível no chat da equipa e ainda assim sentir que ninguém a conhece verdadeiramente, que as suas opiniões não têm peso real, que o seu contributo passa despercebido.

Esta forma de solidão é particularmente difícil de identificar do exterior, porque a pessoa está presente, funcional e aparentemente integrada. Mas internamente vive uma experiência de desconexão que drena energia, compromete a motivação e, com o tempo, corrói o sentido de pertença à organização.

 

Como o trabalho híbrido e remoto amplificou o fenómeno

A generalização do trabalho híbrido e remoto, acelerada pela pandemia, criou condições para que a solidão organizacional se agravasse de forma significativa. As trocas informais que anteriormente aconteciam de forma espontânea, um café no corredor, uma conversa breve antes de uma reunião, o almoço partilhado, deixaram de existir para muitos profissionais.

Estas interações podem parecer triviais. Na prática, são os momentos em que as relações de confiança se constroem, em que as pessoas se conhecem para além das suas funções, em que o sentido de pertença a um grupo se consolida. Quando desaparecem, o que fica são trocas funcionais, eficientes do ponto de vista operacional, mas empobrecidas do ponto de vista humano.

Uma investigação da Universidade de Harvard sobre relações no local de trabalho demonstra que a qualidade das relações interpessoais no trabalho é um dos preditores mais consistentes de bem-estar, longevidade e satisfação com a vida, independentemente de outros fatores como salário ou estatuto. Em contexto remoto, manter essa qualidade exige intenção deliberada, estrutura e um investimento ativo que muitas organizações ainda não fizeram.

 

O impacto da solidão no desempenho e na saúde mental

A solidão não é apenas uma experiência desconfortável. Tem consequências mensuráveis na saúde mental e no desempenho profissional.

Do ponto de vista neurológico, a perceção de exclusão social ativa as mesmas regiões cerebrais que a dor física. Um estudo publicado na revista Science demonstrou que o cérebro humano processa a rejeição social e a dor corporal através de mecanismos semelhantes, o que explica por que razão a solidão não é apenas “sentir-se mal”, mas uma experiência com impacto fisiológico real.

No contexto organizacional, este impacto traduz-se em menor criatividade, maior dificuldade em colaborar, mais conflitos interpessoais e tendência para a hipervigilância nas relações, o que aumenta a tensão e reduz a capacidade de comunicação aberta. Colaboradores que se sentem sós tendem também a registar maior absentismo, menor engagement e maior probabilidade de abandonar a organização.

Um estudo da Gallup com mais de 140.000 participantes concluiu que ter um amigo próximo no trabalho está fortemente associado a maior produtividade, menor rotatividade e maior satisfação geral. A ligação humana não é um “extra” emocional, é uma condição para o funcionamento saudável das equipas.

 

O papel das lideranças na criação de pertença

A solidão organizacional não é um problema que se resolve com atividades de team building pontuais ou com um e-mail corporativo sobre bem-estar. A raiz está na qualidade das relações quotidianas e essa qualidade é, em grande medida, moldada pelo comportamento das lideranças.

Um líder que conhece as pessoas da sua equipa para além das suas funções, que cria espaço para conversas genuínas, que reconhece contributos individuais de forma específica e que demonstra interesse real pelo bem-estar de cada pessoa, cria condições para que o sentido de pertença se consolide.

Por outro lado, um estilo de liderança excessivamente transacional, focado apenas em resultados e entregas, que trata as pessoas como recursos intercambiáveis, tende a gerar equipas funcionais mas emocionalmente desconectadas. E equipas desconectadas são, a médio prazo, equipas frágeis.

A literacia relacional das lideranças, a capacidade de construir e manter ligações humanas autênticas é neste contexto, uma competência estratégica, não um atributo de personalidade opcional.

 

Criar pertença de forma intencional

Combater a solidão nas organizações exige uma abordagem intencional, consistente e estruturada. Não se trata de forçar relações artificiais, mas de criar condições para que as relações genuínas possam emergir e crescer.

Isto pode passar por redesenhar a forma como as equipas se encontram, garantindo que existem momentos de contacto humano que vão além da partilha de informação operacional. Pode implicar criar rituais de equipa que reforcem o sentido de grupo. Pode significar investir em programas de mentoria ou de acompanhamento que permitam às pessoas construir ligações mais profundas dentro da organização.

Em contexto híbrido, é especialmente importante garantir que os dias de presença física não são apenas dias de trabalho no escritório, mas dias de reconexão intencional, momentos onde a dimensão relacional é valorizada com a mesma seriedade que a dimensão operacional.

 

Saúde mental e pertença: duas faces da mesma moeda

A solidão no trabalho é, na sua essência, uma questão de saúde mental. Não porque as pessoas que a vivem tenham um problema clínico, mas porque a conexão humana é uma necessidade psicológica fundamental. Quando essa necessidade não é satisfeita, o bem-estar deteriora-se de forma gradual, muitas vezes sem que a própria pessoa consiga identificar claramente a causa.

Organizações que constroem culturas de pertença genuína não estão apenas a fazer as pessoas sentirem-se melhor. Estão a proteger a saúde mental coletiva, a reduzir o risco de burnout e de absentismo, e a criar as condições para que as pessoas contribuam com o seu melhor de forma sustentável.

O sentido de pertença não é um luxo. É uma das bases mais sólidas sobre as quais o desempenho organizacional pode ser construído.

 

Como a Workwell apoia as organizações neste desafio

É neste enquadramento que o trabalho da Workwell se torna especialmente relevante.

Com uma abordagem integrada que combina as dimensões emocional, social e organizacional do bem-estar, a Workwell ajuda as empresas a identificar padrões de desconexão nas suas equipas e a criar respostas estruturadas, desde programas de apoio psicológico e emocional até eventos e iniciativas que reforçam o sentido de grupo, a confiança interpessoal e a cultura de pertença.

Há 18 anos a trabalhar com algumas das maiores organizações em Portugal, como a Galp, Leroy Merlin, Nestlé ou Zurich Portugal, a Workwell sabe que o bem-estar não se constrói com ações isoladas. Constrói-se com consistência, com intenção e com uma visão clara de que as pessoas são, de facto, o bem mais precioso de qualquer organização.

E as pessoas que se sentem ligadas, que sentem que pertencem, trabalham melhor, adoecem menos e ficam mais tempo.

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Tiago Santos

CEO Workwell

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