Teletrabalho em Portugal: o que mudou para a saúde mental desde a pandemia

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Em março de 2020, Portugal confinou dezenas de milhares de trabalhadores em casa de um dia para o outro. O teletrabalho, que até então era uma realidade para uma minoria de profissionais, tornou-se de repente a norma para uma fatia significativa da população ativa portuguesa. Sem preparação, sem equipamento adequado em muitos casos, sem fronteiras claras entre o espaço de vida e o espaço de trabalho.

Seis anos depois, o teletrabalho em Portugal assumiu uma forma mais estável mas também mais complexa. A maioria das organizações transitou para modelos híbridos. A legislação avançou, com o Código do Trabalho a incorporar disposições específicas sobre teletrabalho, incluindo o direito à desconexão. E o debate sobre os seus efeitos na saúde mental tornou-se mais informado e mais urgente.

O que a investigação revela sobre teletrabalho e saúde mental

A relação entre teletrabalho e saúde mental não é linear. A investigação publicada nos últimos anos mostra que os seus efeitos dependem muito de quem trabalha remotamente, em que condições e com que tipo de suporte organizacional.

Para uma parte dos trabalhadores, o teletrabalho trouxe ganhos reais de bem-estar. A eliminação do tempo de deslocação, a maior flexibilidade para gerir horários e uma maior sensação de autonomia são benefícios reportados de forma consistente. Uma meta-análise publicada no Journal of Occupational Health Psychology concluiu que o teletrabalho está associado a maior satisfação profissional quando é praticado de forma voluntária e com suporte adequado.

No entanto, para uma proporção igualmente significativa de trabalhadores, o teletrabalho está associado a maior isolamento social, dificuldade em desligar do trabalho e esbatimento das fronteiras entre vida pessoal e profissional.

A realidade portuguesa: um contexto específico

Portugal tem características que tornam os desafios do teletrabalho para a saúde mental particularmente relevantes no contexto nacional.

As casas portuguesas, em média, têm dimensões mais reduzidas do que as de muitos países do norte da Europa. A sobre ocupação habitacional é um fenómeno mais frequente em Portugal do que a média europeia, o que significa que uma parte significativa dos trabalhadores que passaram a trabalhar em casa durante a pandemia não tinha condições físicas mínimas para um espaço de trabalho adequado.

A isto somam-se os longos tempos de deslocação que caracterizam as grandes áreas urbanas portuguesas, em particular Lisboa e a sua região metropolitana. Para muitos trabalhadores, o teletrabalho eliminou deslocações de uma hora ou mais em cada sentido.

O isolamento como o desafio mais subestimado

Entre todos os impactos do teletrabalho na saúde mental, o isolamento é provavelmente o mais subestimado nas conversas organizacionais.

Em Portugal, a dimensão relacional do trabalho tem um peso cultural significativo. As relações informais no escritório, o café da manhã, o almoço em grupo, as conversas de corredor, têm um papel importante não só no bem-estar subjetivo mas também na construção de confiança e na identidade profissional.

A investigação sobre teletrabalho em Portugal, incluindo estudos realizados pelo ISCTE e pela Universidade de Lisboa após a pandemia, identificou o isolamento social como uma das principais queixas associadas ao trabalho remoto, especialmente entre trabalhadores mais jovens.

As fronteiras esbatidas: quando o trabalho invade tudo

Um dos problemas mais frequentemente reportados em contextos de teletrabalho em Portugal é a dificuldade em estabelecer fronteiras claras entre o tempo de trabalho e o tempo pessoal.

O Código do Trabalho português foi atualizado em 2021 para incluir disposições sobre o direito à desconexão no contexto do teletrabalho, proibindo as entidades empregadoras de contactar os trabalhadores fora do horário de trabalho. Na prática, a aplicação desta norma continua a ser muito variável.

Uma parte significativa dos trabalhadores em teletrabalho em Portugal reporta receber mensagens e emails fora de horas, com expectativa implícita de resposta. A lei estabelece um direito. A cultura de disponibilidade permanente estabelece uma pressão no sentido oposto.

O modelo híbrido como resposta parcial: oportunidades e riscos

A maioria das grandes organizações portuguesas que mantiveram políticas de teletrabalho após a pandemia transitou para modelos híbridos. Este modelo tem a vantagem de combinar a flexibilidade do trabalho remoto com a presencialidade que favorece as relações e reduz o isolamento.

Um dos riscos mais documentados é a tendência para colaboradores que trabalham mais frequentemente em casa serem menos visíveis para as lideranças, receberem menos feedback e terem menos oportunidades de progressão.

O que as organizações precisam de fazer de forma diferente

A investigação acumulada sobre teletrabalho e saúde mental aponta para um conjunto de práticas organizacionais que fazem diferença concreta no bem-estar dos colaboradores remotos.

A criação de rituais de equipa que garantam contacto humano genuíno, para além das reuniões operacionais, é um dos mais importantes. A formação de lideranças para a gestão de equipas híbridas, com ênfase na equidade entre colaboradores presenciais e remotos, é outro elemento essencial.

E a disponibilização de apoio psicológico confidencial e acessível a colaboradores remotos, incluindo em formatos digitais, é uma condição de base para que o bem-estar mental seja tratado com a seriedade que merece.

A Workwell como parceira na gestão do bem-estar em equipas híbridas

A Workwell apoia as organizações portuguesas na construção de respostas adequadas aos desafios de saúde mental colocados pelo trabalho híbrido e remoto.

Com 18 anos de experiência em saúde e bem-estar organizacional em Portugal, a Workwell desenvolve programas de apoio psicológico acessíveis em formato presencial e digital, formação de lideranças para a gestão de equipas distribuídas, e consultoria para organizações que querem garantir que a flexibilidade do teletrabalho não se transforma num custo silencioso para a saúde mental.

Portugal mudou a forma como trabalha. Agora precisa de aprender a cuidar melhor de quem trabalha de onde for.

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Tiago Santos

CEO Workwell

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